A paz é que o povo chama/ a paz é que o povo chama/ Se há que expor ideias / que vão a nosso contento / é discutir com maneiras / o que vai no pensamento / Angola é mulher é flor/ é mãe que a todos ama/ acabem com esta dor / a paz é que o povo chama.
(Vários músicos, in Projecto "A Paz é que o Povo Chama")

Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

Elogio da poesia, do escritor João Melo (*) In Jornal de Angola, 12/11/07

Este fim-de-semana, voltei à leitura da poesia, algo que não fazia há meses. Depois de reler os primeiros autores – entre tantos que me são queridos –, uma pergunta me saltou, de repente: - Porquê?

Essa pergunta não tem resposta. Com efeito, a poesia está vinculada à aventura humana desde os primórdios.

Quando os homens se viram subitamente sozinhos, no meio da imensidão do planeta, inventaram a primeira forma de poesia: o grito. Depois, inventaram o canto. Finalmente, transformaram o silêncio, emprestando-lhe todos os sentidos possíveis.

Grito, canto e silêncio correspondem a funções essenciais da poesia, da súplica ou da revolta ao protesto tenso e contido, passando pela exaltação e louvação. Os teóricos encerram essas funções em categorias: engajamento, lirismo, épica, experimentalismo, hermetismo.

Em qualquer uma das suas formas-funções, a poesia é para ser partilhada. Por isso, a poesia e a música sempre estiveram juntas. Daí, também, as reuniões onde se dizia e escutava poesia. Hoje, à falta delas, posso assegurar aos leitores que ler poesia em voz alta pode ajudar a “captar” melhor todo o seu mistério.

É por essa razão – o imperativo de comunhão que está por detrás da poesia – que decidi partilhar o presente elogio de poesia com os leitores desta coluna.

Recordo, por exemplo, o meu encontro com a poesia angolana. Foi em casa do grande músico, atleta e hoje empresário da educação, Ruy Mingas, em Lisboa. O ano: 1970. Eu tinha apenas 15 anos. Quando li a Antologia de Poesia Negra de Expressão Portuguesa, organizada por Mário de Andrade, foi uma revelação. Um “Alumbramento”, diria o brasileiro Manuel Bandeira.

A poesia de Viriato, Neto, Jacinto, Ayres, entre tantos outros, era um grito a que ninguém podia ficar insensível. Por isso era perseguida. Por isso tinha de circular clandestinamente, de boca em boca, de ouvido em ouvido.

A poesia angolana também soube ocupar espaços disponíveis. Na primeira metade dos anos 70, os poemas de Arnaldo Santos, Jofre Rocha, Henrique Guerra, António Cardoso, João Abel e outros ensinaram-nos, entre as suas linhas cifradas, que atrás das grades havia pássaros que cantavam.

Soubemos mais tarde que a guerrilha também tinha produzido poetas. O maior deles: Costa Andrade (Ndunduma), o grande poeta épico da luta de libertação nacional. Merece, há muito, uma antologia final, com capa dura e papel de luxo.

Enquanto isso, quase em silêncio, três poetas produziam um trabalho pessoalíssimo, que, por isso mesmo, precisou de tempo para ser reconhecido: David Mestre, Ruy Duarte, João Maria Vilanova.

Nos primeiros cinco anos de independência, a poesia e o discurso oficial pareciam confluir (e identificar-se) na utopia revolucionária comum, mas a poesia cedo descobriu que entre o discurso e a prática havia um problema: “o discurso pôs-se à frente da prática/e agora anda à deriva/ como um cego”.

Henrique Abranches, em “Canto Barroco”, deu o primeiro aviso. Durante os anos 80, a poesia angolana foi profundamente renovada. Novos sujeitos, novos temas, novas formas, novas grafias ocuparam o seu espaço na cena política. Nada unia esses novos elementos, a não ser a decisão de fazer uma poesia livre de quaisquer programações, cumplicidades orgânicas ou calculismos.

A poesia cumpre, assim, a sua “missão” primordial: salvar o homem de todas as amarras.

Ninguém pode, portanto, vilipendiá-la.
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(*) Jornalista, escritor, deputado e empresário

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