A paz é que o povo chama/ a paz é que o povo chama/ Se há que expor ideias / que vão a nosso contento / é discutir com maneiras / o que vai no pensamento / Angola é mulher é flor/ é mãe que a todos ama/ acabem com esta dor / a paz é que o povo chama.
(Vários músicos, in Projecto "A Paz é que o Povo Chama")

Segunda-feira, Fevereiro 20, 2012

Opinião: "A imbecilização do país pelo Kuduro"


Não sei se os subscrito­res da DSTV «topa­ram» a pretensão en­capotada da TV Globo em Angola, mas, há duas semanas mais ou menos, que um preten­sioso anúncio foi enviado para os «mails» dos clientes. O anúncio é ele próprio pretensiosíssimo. Pre­tende convocar os subscritores angolanos a dizerem uma parvo­íce favorável à DSTV e, em troca, ganhar uma prenda.

Texto do Semanário Angolense, 18/02/2012, da autoria de Kajim Ban-Gala.

Diz-se que a fruta podre (como o pretensioso) nunca cai longe da árvore. Isto é: o pretensioso nunca se afasta das suas pretensões, a não ser que a sua pretensão apodreça e isso é o que acontece quase sempre. Já não bastava o pacote senil «pay-per- viw» que a DSTV oferece hoje em dia aos seus subscritores.

É de todo, ou quase no todo, uma plataforma repetidora que repete os mesmos conteúdos, pas­se o pleonasmo. Basta ver, caro leitor, os canais de cinema: um festival senil de repetição de pe­lículas antigas, já arquivadas em todos os países que as realizaram. Encarados que somos como de­pósito de velharias já descartadas noutros cantos do planeta, aceita­mos a condição de aterro do lixo televisivo.

A subjugação cultural do nos­so país pelas culturas alheias é um facto preocupante. Veja-se um caso: a TV Globo, que, numa atitude de colonialismo cultural aberto e insultuoso, repete «ene» vezes os mesmos produtos nove­lísticos e séries, há mais de três anos ou mais. As suas novelas pa­recem histórias escritas e vividas por pessoas que nada têm a ver com o Brasil real. Mais parecem histórias ocorridas num qualquer país nórdico.

A propósito de um episódio em que um participante negro do «Big Brother Brasil» foi acusado de «ngombelar» outra participan­te, branca, até as autoridades bra­sileiras questionaram a concessão e a idoneidade da Globo para ope­rar em televisão aberta. Enquan­to isso, em Angola, a pretensiosa DSTV pretende endeusá-la.

Um país, como o nosso, que consome por junto e atacado o ra­cismo cultural da TV Globo e ao mesmo tempo entroniza na sua escala de valores musicais o Ku­duro, pode esperar por um futuro culturalmente risonho. Por exem­plo, a pretensão do movimento nacional do «i love kuduro» vai além de um mero pretensiosismo: culmina na convicção de que esse género musical que se dança de forma «aparatosamente apalha­çada» e cantado com letras in­decentes e indecorosas, é o traço musico-cultural mais notório do nosso país.

Há uns dias atrás, o jovem can­tor Koréon Dú congratulava-se no Canal 1 do TPA com os «bifes» que os kuduristas se distribuem em plena luz do dia e fora do Carna­val. Mas a pretensão de elevar este estilo musical (não sei dizer: na verdade, vejo que os estrangeiros pensam tratar-se de um valor exó­tico, algo inusitado, fora do con­texto cultural africano) teve nele um arauto. Quis estabelecer um paralelismo com os «bifes» que os kotas mandavam para os seus ho­mólogos dos grupos carnavalescos de antigamente.

Mas, quem se achar pretensioso o suficiente e quiser provar os «bi­fes» do Kuduro, experimente «tra­gar» a matéria escrita por Romão Brandão (SA, 11/02/2011, pág.40). É a nossa falta de pertença à nossa cultura ou culturas inter-étnicas, que fará com que a pretensão pre­tensiosa do Kuduro avance.

Refiro-me, portanto, à nossa desistência do Semba, da Ndjim­ba, do Katembe, entre outros. Convém interpelar as nossas consciências a respeito do futuro dessa juventude kudurista e mais do que isso, «kudurizada». P’ra quê maratona do saber? Maratona é a da conhecida cervejeira: «é só mijar, sussa!».

A juventude angolana «kudu­rizada» tornou-se pretensiosa tal como a DSTV, porque percebem que actuam num país sem orien­tação cultural. Um país falho de bons exemplos. O facto de o Ku­duro aparecer sempre associado a drogas, distúrbios da ordem pú­blica e consumo avarento do ál­cool não desperta as autoridades.

Assistir, diariamente, os jovens alienarem-se sob a influência do «carro-chefe» da alienação, o Ku­duro, faz dó. Onde e quando se montam os potentes decibéis de Kuduro, o resultado é sempre o mesmo: a perturbação do sossego colectivo. Os jovens que optam por empregar o seu tempo a estu­dar têm que se mudar de lugar.

Aqui se percebe que as sôfregas mensagens das autoridades so­bre a necessidade de incutir nos jovens a cultura nacional, a mo­ral, a ética social, e a preservação dos bons costumes, não-violência contra a mulher, etc, é para ser lida no sentido contrário. Como por exemplo: cultivem a desbun­da a torto e a direito, perturbem o mais que puderem a paz social de quem vos rodeia, incendeiem a violência doméstica contra a mu­lher, embebedem-se sem parar, e depois disso, mijem em qualquer parede
Os mais velhos do Carnaval daqueles tempos cultivavam a de­cência vernacular, e não vendiam «bifes» malcheirosos ou sangren­tos, como agora o kuduro vende. Espremidas certas letras do Kudu­ro, só sai sangue, pornografia, in­citamento ao desafio da autorida­de policial, desrespeito à mulher, etc. Antigamente os «bifes» eram suculentos. Como este: «Kela ua zueló Cabocomeu tujioluaape­sar tujiolua, mas tu zuata kia mbo­te», que era um saudável «bife» dos mestres carnavalescos do his­tórico Sambizanga.


Texto do Semanário Angolense, 18/02/2012, da autoria de Kajim Ban-Gala.

6 comentários:

Watela disse...

mano já fiz o copy e encaminhei via e-mail para os meus contactos...(link incorporado)...muito "boa" gente precisa ler esse outro lado do "I love Kuduro"...estamos juntos

Odracir disse...

Como sempre a moeda tem dois lado, esta é com certeza uma analise importante do outro lado da moeda que a muito de nós escapa, ou se nao escapa nem sequer nos deixa perplexos; porém nao podemos esquecer que tambem existe um bom lado (pelo menos assim acredito), pois quase q chego a "infeliz" conclusao de que para muitos, bom seria se o KD nao tivesse existido, será q devemos voltar no tempo e discutir se KD é música ou nao??? (tal como acontecia no "Janela Aberta"). Aspectos podem sim e reclamam por melhorias, daí que seja positivo encontrar o lado menos bom para assim podermos com o tempo ir melhorando; mal seria querer abortar este filho "indesejado" da nossa cultura. Importa tambem nao perder de vista que na maioria das vezes o conteudo lírico (se assim se pode considerar) prende-se com o modo de vida e o meio social dos próprios interpretes cujos valores sao expressos nas músicas, assim o ataque apenas ao estilo KD nao abrangeria a verdadeira causa do problema, pois entendo q o ataque deve tambem passar pela melhoria das condições sociais, à mudança do "modus vivendi" dos jovens (com particular incidencia aos que residem nas periferias).

Angola Debates e Ideias- G. Patissa disse...

Ainda sobre o debate, acabei de achar nos arquivos cibernéticos o posicionamento do (já falecido) etnomusicólogo, Jorge Macedo:

‎"Sim, são passageiras e nós não devemos educar a nossa juventude com coisas dessa natureza. O que a juventude quer é curtir, quer ritmos galvanizantes para se divertir. E estamos num período de transição muito difícil, não há alternativas e os jovens seguram-se a qualquer coisa. O kuduro tem um aspecto rítmico do semba. Mas o semba é muito mais rico. O kuduro ficou com uma pancada, duas estruturas rítmicas, salvo erro, que é a batida básica, e depois vem um flash que dá a fisionomia do semba. Mas o semba é um agregado de ritmos muito mais rico, tem viola baixo, tem viola ritmo, tem viola solo, tem sopros, tem a parte da melodia, tem as tumbas. Só o conjunto, só todos esses efeitos é que dão o enriquecimento do semba. Agora, reduzir o semba àquela brincadeira... O mal do kuduro não é só aquele ritmo monótono, aliás os pops e os raps às vezes também têm disso. Mas há o lado da letra, a letra do kuduro é incultura, asneira."

Ler entrevista completa em http://www.ueangola.com/index.php/entrevistas/item/371-todas-as-variantes-do-portugu%C3%AAs-s%C3%A3o-bem-vindas-na-literatura-angolana.html

soantes disse...

Essa tua visão parece-me interessante. E a letra do kuduro é mesmo das mais pobres que andam por aí, o fazer crítica social é um cliché que já deu as botas.

Ricardo Glenn Baptista disse...

http://minha-angola.blogspot.com/2010/11/mo-povo-luta-hoje-contra-si-proprio.html

Weko disse...

Genial o texto. Sou brasileiro, e a globo aqui no Brasil é a responsável por deixar a nossa população alienada, suas novelas estão cada vez piores, fazendo com que os baixos valores, prostituição, traições, entrem todos os dias nas casas dos brasileiros, fazendo com que achem isso uma coisa normal. Não queiram um lixo como a globo no país de vocês.