A paz é que o povo chama/ a paz é que o povo chama/ Se há que expor ideias / que vão a nosso contento / é discutir com maneiras / o que vai no pensamento / Angola é mulher é flor/ é mãe que a todos ama/ acabem com esta dor / a paz é que o povo chama.
(Vários músicos, in Projecto "A Paz é que o Povo Chama")

Sábado, Fevereiro 25, 2012

Ser ou não ser referenciada a fonte: uma questão de educação para a cidadania entre a literatura e as artes cénicas

Fiquei contente ao notar que o meu poema "Sonhos de rua" inspirou peça teatral, em Luanda,  e sobretudo porque as receitas arrecadadas serviram para apoiar um centro de abrigo para crianças desfavorecidas. Entretanto, não tardou a tristeza. É que, apesar de tudo, o grupo não se lembrou de referenciar em que se inspirou. Detalhe apenas?

Eis o poema, divulgado também aqui no Blog Angodebates, originalmente publicado no meu poemário de estreia, Consulado do Vazio, KAT consultoria e empreendimentos, Julho 2008)

No dia de São Valentim
vou apanhar flores
e guardá-las bem perto de mim
debaixo do meu banco de jardim
e tenho a certeza de que logo à noite
a morena miss dos meus sonhos
a sua prenda virá reclamar
sou criança de rua
mas tenho o sonho
na conta do que a sorte me negar.

A notícia publicada pela Angop no dia 16 de Junho de 2011 diz:

19-06-2011 7:10 Representação
Njila apresenta peça teatral Sonhos de Rua 
Luanda – O grupo teatral Njila vai exibir dia 23, no auditório Njinga Mbandi, em Luanda, a peça intitulada “Sonhos de Rua”, que retrata o sofrimento e o sonho dos meninos da artéria. Em declarações à Angop, o director do grupo Waldemar Francisco disse que o espectáculo teatral é de beneficência para as crianças do Lar Kuzola e dos meninos de rua.  “Os valores monetários que vamos arrecadar no espectáculo teatral e musical iremos comprar vestuários, calçados e lençóis para levarmos no Lar Kuzola e a outra parte ofereceremos aos meninos que se encontram nas ruas da cidade capital”, frisou. Segundo o músico Waldemar Francisco, é uma enorme satisfação ajudar estas crianças abandonadas que necessitam de muito carinho e amor para poderem ultrapassar as dificuldades do dia-a-dia. Disse ser importante que outros artistas façam acções do género, para contribuírem para a melhoria da dieta alimentar destes menores. Acrescentou ser necessário confortar estas crianças carenciadas para reduzir o sofrimento dos mesmos e proporcioná-los um futuro promissor.


Não parecem restar dúvidas de como não é só coincidência o que há entre o tema/contexto/personagem do poema e a peça teatral. Será portanto de compreender a tristeza que me ocorreu ao notar que o grupo revela uma necessidade urgente de se repensar a noção da cidadania nas artes. Citar a fonte de inspiração da peça teatral não é tão irrelevante como vem parecendo quando se trata de textos de escritores menos famosos, nem tornaria os actores menos talentosos.

Gociante Patissa, Fevereiro 2012.

2 comentários:

DECIO BETTENCOURT MATEUS disse...

Gociante, a notícia entristeceu-me igualmente. Temos a SADIA. Acho que deves apresentar queixa, exigindo assim o devido respeito pela tua criação artística, e desencorajando outros mais semelhantes procedimentos dos mesmos e não só.

Angola Debates e Ideias- G. Patissa disse...

Muito grato, confrade Décio. Infelizmente, não consigo achar referência do grupo quanto à sua localização. Não vi mais nada sobre eles na imprensa, talvez nem exista mais. Um abraço